Resumo do Simpósio
O Novo Brasil no Cenário Mundial
Realizado na Columbia University
12 e 13 de setembro de 2011.
 
 Texto - Professor Dr. Marco Aurélio Nogueira (UNESP)
 

 

Instituto Nabuco e BEA realizam simpósio em Nova York

O Brasil tornou-se um protagonista cada vez mais importante do sistema internacional. Deixou de ser o país do café, do futebol-espetáculo, do samba e da bossa-nova, do território imenso e de muitas riquezas naturais. É visto hoje como uma vigorosa economia industrial, uma sociedade que se esforça para reduzir a desigualdade e retirar milhões de pessoas das zonas indignas da pobreza extrema, e que está conseguindo avançar nesta direção sem retroceder em termos políticos, ao contrário, exibindo um sistema democrático que parece consolidado.

Por tudo isto, tornou-se um país que ocupa lugar de crescente destaque na cena internacional e que ensaia passos mais audaciosos, seja no âmbito comercial, seja em termos de política externa.

Para examinar e discutir essa nova situação, o Instituto Joaquim Nabuco de Governo e Diplomacia, patrocinado pela Brazilian Endowment for the Arts, realizou nos dias 12 e 13 de setembro, na sede do Institute of International and Public Affairs, Columbia University, o Simpósio Internacional "O Novo Brasil no cenário mundial".

Do evento participaram especialistas brasileiros e norte-americanos, que procuraram analisar alguns dos mais importantes aspectos da nova situação internacional e avaliar o lugar que nela ocupa o Brasil.

Na conferência inaugural, o Cônsul-Geral do Brasil em New York, Luiz Felipe de Seixas Corrêa examinou aquele que talvez seja o mais expressivo indicador da envergadura adquirida pela política externa brasileira: a participação ativa do país na união que se tem convencionado chamar de BRICS (Brasil, Russia, India, China e África do Sul). Para o embaixador, não se trata de uma união circunstancial, mas de um movimento que revela o progressivo deslocamento de poder que se observa na cena internacional das duas últimas décadas. O mundo já não é mais unilateral e ao enfraquecimento relativo das antigas potências faz-se acompanhar a emergência de novas potências, das quais os BRICS são uma expressão bem acabada.

Análise semelhante foi feita por Thomas Trebat, diretor executivo do Institute of Latin American Studies/Center for Brazilian Studies, Columbia University. Sua apresentação se concentrou no reconhecimento de que imagem do Brasil mudou positivamente, em sintonia com as mudanças que podem ser observadas na estrutura internacional. A crise econômica, a falta de lideranças mundiais e indefinições quanto ao futuro das grandes potências fizeram com que os países “periféricos” ganhassem projeção, tanto no plano econômico quanto no político. Passaram a aproveitar a situação mundial para melhorar sua distribuição de renda e crescer comercialmente. O Brasil e a América Latina, com isso, tornam-se um cenário novo e desafiador para os Estados Unidos.

   A constatação foi reiterada pelo economista Aristides Monteiro Neto, Assessor-Chefe de Planejamento e Articulação Institucional do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada-IPEA, organismo vinculado à Presidência da República do Brasil. Utilizando-se de importantes dados de desempenho da economia brasileira, sua análise procurou avaliar as circunstâncias internas que permitem afirmar que o país se encontra hoje maduro para empreender um movimento firme de desenvolvimento.  A melhoria que se observa na distribuição de renda e a estabilidade monetária indicam o legado positivo da política econômica e das políticas sociais que vêm sendo empregadas pelo Estado brasileiro, ainda que não tenham resolvido todos os problemas. 

Por sua vez, o cientista político Marco Aurélio Nogueira, do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Universidade Estadual Paulista-UNESP, de São Paulo, projetou o Brasil para o terreno da integração regional. Para ele, o país poderá ganhar força e relevância no mundo de diferentes maneiras. Tornando-se um player comercial sempre mais forte, por exemplo, de modo a explorar a seu favor a expansão econômica da China e a incrementar seu próprio papel como construtor do bloco BRICS. Sua política externa poderá auxiliá-lo sobremaneira, especialmente se preservar e atualizar os valores de respeito à autodeterminação e à soberania dos povos que ocupam lugar de destaque nas tradições de independência do Itamaraty. Mas também é razoável supor que boa parte de seu sucesso futuro dependerá da capacidade que tiver de praticar políticas de integração regional que se ponham num patamar mais amplo do que o intercâmbio comercial, ou seja, que aproximem de fato povos, regiões, sociedades e culturas e se sintonizem com as particularidades dos diferentes países.

São certamente muitos os problemas que a sociedade brasileira tem pela frente, reiteraram os especialistas presentes ao simpósio. Entre eles, a educação figura em lugar de destaque, seja no que diz respeito à recuperação da escola pública, seja quanto à reorganização do sistema escolar como um todo. O economista Fernando Freire, presidente da Fundação Joaquim Nabuco, de Pernambuco, valendo-se de recentes pesquisas divulgadas no Brasil, construiu amplo panorama da situação educacional do país, procurando salientar os avanços obtidos nas últimas décadas e, ao mesmo tempo, as questões que desafiam o futuro. As carências e dificuldades ainda são graves e tendem a limitar as chances do país no curto prazo, especialmente porque a educação se converteu numa decisiva alavanca do desenvolvimento.

O interesse acadêmico pelo Brasil não é fenômeno recente. Há uma longa e importante tradição consolidada nos Estados Unidos, da qual os "brazilianists" são expressão eloquente. Durante o simpósio, o tema foi examinado pelo historiador Marshall Eakin, da Vanderbilt University e ex-Diretor Executivo da Brazilian Studies Association-BRASA. Partindo da apresentação das razões que levaram ao nascimento e à consolidação nos anos 1960 e 1970 de um forte grupo de historiadores e cientistas sociais especializados em temas brasileiros, Eakin procurou compreender a atual fase das pesquisas e o peso relativo que os estudos a respeito passaram a ter nas universidades norte-americanas.

Já o historiador Humberto França, da Fundação Joaquim Nabuco e Vice-presidente para Relações Internacionais do Instituto Nabuco de Governo e Diplomacia, traçou um documentado panorama da performance de Joaquim Nabuco como embaixador do Brasil (entre 1905 e 1910), procurando mostrar como a imagem positivo dos estadistas pode contribuir para a melhoria das relações entre os países.

Na última conferência do simpósio, o Ministro-Conselheiro da Missão do Brasil junto à ONU, Maurício Carvalho Lyrio, representando a Embaixadora Maria Luíza Viotti, delineou o núcleo mais relevante da política externa brasileira atual, com a qual o país postula maior reconhecimento de seu papel no mundo. Seguindo uma perspectiva plural, que valoriza a paz, o multilateralismo e a autodeterminação dos povos, é uma política que se caracteriza por ser abrangente e sem preconceitos. Mostra-se assim afinada com as tradições do Itamaraty e aberta para o mundo.

O simpósio foi encerrado por Domício Coutinho, Presidente do Instituto Nabuco e da Brazilian Endowment for the Arts,que recordou que em 2010, aBEA  reuniu em Nova York um grupo de professores, diplomatas e pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos, que realizaram um simpósio de idêntica relevância. Naquela ocasião, fundou-se o Instituto Joaquim Nabuco de Governo e Diplomacia, com dois objetivos precípuos: (a) fortalecer e ampliar a democracia vigente, apoiando-a na dignidade do Homem e em governos do povo, pelo povo e para o povo; (b) contribuir para que prevaleça sempre mais no plano internacional e nos distintos planos nacionais a “palavra”, o “logos”, base fundamental do diálogo, da diplomacia e dos esforços em prol da paz. Desde então, o Instituto Nabuco tem procurado colaborar para que os estudos de acadêmicos e cientistas brasileiros sejam mais bem conhecidos nos Estados Unidos, em correspondência com os espaços alcançados pelo Brasil no cenário global.  O segundo Simpósio Internacional inseriu-se neste contexto e seu sucesso, expressado pela alta qualidade das conferências apresentadas, indica que o Instituto Nabuco está no caminho certo.

Durante o simpósio foi lançado o livro Joaquim Nabuco e o Novo Brasil, organizado por Humberto França e publicado pela Companhia Editora de Pernambuco, que reúne os papers apresentados no simpósio promovido pelo Instituto Nabuco em novembro de 2010.

O segundo Simpósio Internacional consolidou o trabalho realizado no ano passado. Ofereceu uma excelente oportunidade para se analisar a situação brasileira com os olhos no mundo. Mostrou que o Instituto Nabuco de Governo e Diplomacia tem amplo campo para crescer e se afirmar como um importante ponto de convergência e atuação de especialistas e estudiosos da situação internacional.

 

 

 

 


                 


 
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